Liceu
Liceu Camilo Castelo Branco
Escola Secundária Camilo Castelo Branco · Vila Real
ES CAMILO CASTELO BRANCO
A Escola Secundária Camilo Castelo Branco [ ESCCB] é uma instituição pública de ensino localizada em Vila Real, no norte de Portugal. É um dos principais estabelecimentos de ensino da região, reconhecida pela sua relevância educativa e pela sua contribuição para a formação académica e profissional no seu território. Com uma história que remonta a 1848, esta escola assumiu ao longo dos tempos um papel fulcral no ensino secundário em Trás-os-Montes, tornando-se numa instituição de referência que engrandece a cidade de Vila Real.
Ao longo da sua história, a escola adotou várias designações, refletindo as transformações políticas e educativas do país:
A escola recebeu definitivamente o nome do escritor romântico Camilo Castelo Branco, figura incontornável da literatura portuguesa do século XIX, tornando-se assim um tributo permanente a um dos maiores vultos das letras nacionais.
O liceu iniciou as suas atividades em 1848. Inicialmente contava com apenas dois professores. Em 1851, foram nomeados mais três professores, ao abrigo do Decreto Cabralista de 1844, e realizou-se nesse mesmo ano, a 6 de Outubro, a primeira R eunião de Conselho que constituiu definitivamente o Liceu. A designação de Liceu Nacional resultou de Decreto Régio de 17 de Novembro de 1836.
A par do ensino oficial, no liceu lecionavam-se as disciplinas de Latim, Gramática Portuguesa e Latina e Latinidade.
Na sua categoria, o liceu de Vila Real era considerado de "segunda linha " , dependendo da circunscrição do Porto para a prestação de exames. A 23 de Junho de 1879, através de um decreto, Vila Real passou a ser local de exame, o que fez com que os alunos de Bragança se deslocassem até lá para a realização de provas.
A sua existência viu-se atribulada pela criação de um liceu próximo: o liceu de Chaves, que abrangeu os alunos de Boticas, Chaves, Montalegre e Valpaços. Desta forma, o Liceu de Vila Real perdeu os alunos desses concelhos.
Vila Real almejava que o seu liceu fosse elevado a C entral, à semelhança do que já acontecia em Braga ( Minho), Porto ( Douro Litoral), Viseu e Coimbra ( Beiras) e Évora ( Alentejo). Em 1910, os liceus de Faro, Castelo Branco e Bragança subiram a essa categoria, impulsionando o liceu de Vila Real a envidar todos os esforços para o mesmo reconhecimento.
O Estado impôs como condição a criação de um internato liceal. Em 1911 foi constituída uma comissão, com membros do Governo Civil, da Comissão Municipal, professores e alunos, encarregada de estudar a sua organização. Para o internato foi arrendado o Colégio de Nossa Senhora do Rosário, pertencente a Monsenhor Jerónimo de Amaral.
A 17 de Junho de 1911, por decreto do Ministro do Interior António José de Almeida, o liceu de Vila Real foi elevado a C entral. O documento oficial determinava:
Tendo em vista as representações que me foram feitas, hei por bem decretar o seguinte: Artigo 1.º. São elevados a lyceus nacionaes centraes os lyceus nacionaes de … e Villa Real, com a condição expressa de, em todos elles, se estabelecer um internato lyceal. Ministro do Interior, António José de Almeida
Em 1914 recebeu o nome de Liceu Central de Camilo Castelo Branco. Apesar da contestação do conselho de Portalegre, que alegava que "Vila Real não tinha razão de o possuir" , o liceu manteve o estatuto e chegou mesmo a alargar a sua área de influência a alguns concelhos do distrito de Viseu.
Contudo, com as reformas do Estado Novo, o liceu acabou por regressar ao estatuto de L iceu N acional. Após o 25 de Abril de 1974, e de acordo com o Decreto-Lei n.º 80/78, de 27 de Abril, passou a designar-se Escola Secundária de Camilo Castelo Branco. O processo de unificação dos 7.º, 8.º e 9.º anos de escolaridade, que havia sido previsto na reforma de Veiga Simão e iniciado em 1971 sob pressão da OCDE, culminou em Janeiro de 1975 com o lançamento do Curso Secundário Unificado.
A escola encontra-se em Vila Real, no norte de Portugal. As suas instalações atuais ocupam o espaço construído por iniciativa de Monsenhor Jerónimo do Amaral, no início do século XX, na Praça Camilo Castelo Branco — antiga Praça Velha.
Ao longo da sua história, o liceu passou por várias moradas até encontrar uma sede permanente. As versões documentadas das suas localizações sucessivas são as seguintes:
1.ª Versão
- Convento de São Francisco
- Rua Dona Margarida Chaves
- Travessa de São Paulo (Rua Avelino Patena)
- Caminho de Baixo (Rua do Rossio)
- Espaço que a escola ocupa atualmente
2.ª Versão
- Palácio do Governo Civil
- Travessa de São Paulo
- Rua do Rossio (Caminho de Baixo)
- Primitivo imóvel que deu origem às atuais instalações
3.ª Versão
- Rua 31 de Janeiro
- Palácio do Governo Civil
- Rua Avelino Patena
- Caminho de Baixo
- Edifício mandado construir por Monsenhor Jerónimo do Amaral
As primeiras instalações onde funcionou o liceu permanecem desconhecidas. Sabe-se, contudo, que em 1862 a secretaria do Governo Civil, a repartição de Finanças, o liceu e a estação telegráfica partilhavam o mesmo edifício.
Em 1881, o liceu instalou-se na Rua das Flores, num espaço arrendado por dez anos. Em 1897, mudou-se para a Rua do Rossio.
A vida errante do liceu terminou graças a Monsenhor Jerónimo do Amaral, grande benemérito e amigo de Vila Real, que mandou construir, em 1901, a expensas suas e junto ao seu Colégio de Nossa Senhora do Rosário, um imóvel adequado, na então Praça Velha, atual Praça Camilo Castelo Branco. No entanto, o número de alunos foi crescendo e as instalações tornaram-se insuficientes.
Em 1911, quando o liceu foi elevado a "central", as classes complementares foram transferidas para o Colégio Nossa Senhora do Rosário. Em 1915, após a venda deste edifício, essas classes foram novamente transferidas, desta vez para a Casa da Câmara.
Em 1916, o edifício do liceu foi demolido em consequência da abertura da Avenida Carvalho Araújo. Tornou-se então necessário aumentar o número de salas, passando a existir treze salas e seis gabinetes. Por falta de ginásio ou de pátio adequado, não havia aulas de Educação Física.
No final da década de 1920, o liceu recebeu verbas para obras de melhoramento. Com esse investimento, iniciou-se em 1932 a ampliação do edifício, "construindo- se novos corpos de edifício, com todas as modernas condições pedagógicas, nos terrenos anexos" (O Povo do Norte, 24 de Novembro de 1929). A ampliação, porém, não resolveu definitivamente o problema de espaço.
Em 1971 foi inaugurado o refeitório. Em 1974, o aumento do número de alunos tornou as salas e o equipamento insuficientes, levando à implantação, em 1978, de um pavilhão pré-fabricado com catorze salas.
O liceu possuía ainda um museu colonial, motivo de orgulho da instituição. Em 1927, foi instalado um posto meteorológico, que enriqueceu consideravelmente o material didático disponível.
O campus atual inclui edifícios de aulas, laboratórios, biblioteca, ginásio e espaços verdes, refletindo décadas de adaptação e modernização pedagógica.
A Escola Secundária Camilo Castelo Branco [ ESCCB] oferece o ensino básico e o ensino secundário ( regular e artístico – música), sendo uma escola pública sob tutela do Ministério da Educação de Portugal. A sua oferta formativa inclui os cursos científico-humanísticos, cursos profissionais, ensino recorrente noturno ( modular) e o português língua de acolhimento.
Ao longo das décadas, a instituição adaptou-se às sucessivas reformas educativas nacionais, modernizando infraestruturas e métodos pedagógicos, e promovendo projetos culturais, desportivos e de cidadania que integram ativamente a comunidade local.
Tal como noutros liceus, a tradição académica mais conhecida era a comemoração do 1.º de Dezembro. Os festejos realizavam-se com bandeiras e luminárias nos edifícios, música nas ruas, vivas aos professores, foguetes e dois feriados académicos.
As preparações das festas começavam em Outubro, com a elaboração do programa, a organização de bailes e a formação de conjuntos musicais. Das festas constava o " Regadinho", realizado nas noites de sábado do mês de Novembro. No início da noite tinha lugar a Ruada: um cortejo pelas ruas em que os estudantes desfilavam de capa e batina, com uma banda de música a acompanhar. Os cortejos paravam sempre perante as residências dos professores, seguindo-se uma homenagem académica.
Só em 1925 foi batizada a bandeira da Academia, numa cerimónia a rigor, seguida de um baile. À noite tinha lugar a Récita de Gala, que consistia numa peça de teatro e num ato de variedades. O 25 de Abril de 1974 veio alterar profundamente estas festividades.
O Regadinho, criado antes de 1926, era um processo mobilizado pelos estudantes para criticar e manifestar a sua opinião sobre factos, pessoas e situações da vida citadina. Para o efeito, vestiam-se de modo extravagante, encarnando personagens da vida real e ridicularizando algumas situações.
Em 1920 foi criada a Associação Académica Camilo Castelo Branco, com o objetivo de ajudar no desenvolvimento físico, moral e intelectual dos alunos. A associação promoveu visitas de estudo, apoiou o pagamento de propinas e de livros dos alunos mais carenciados, e dinamizou um grupo orfeónico, festas escolares e celebrações de datas históricas.
Um dos grandes objetivos desta associação foi eliminar a indiferença que rodeava o liceu, objetivo alcançado gradualmente e reforçado pela elevação do liceu a central. Durante a sua existência de mais de 1 7 5 anos, o liceu publicou inúmeros jornais, dos quais se destacam A Voz Escolar, O Cábula, A Academia Portuguesa, O Liberal, O Ridículo, A Ripada e O Académico.
Atualmente, a Escola Secundária Camilo Castelo Branco desempenha um papel central na educação pública de Vila Real, colaborando com instituições de ensino superior como a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. É reconhecida pelo seu desempenho académico e pela formação de alunos que seguem carreiras nas mais diversas áreas científicas e artísticas, em Portugal e no estrangeiro.
As suas tradições marcaram não só as gerações de alunos que por lá passaram, mas também a própria cidade. Talvez por se situar numa região a norte do país, distante dos grandes centros urbanos, o liceu de Vila Real tornou-se tão importante para a identidade e o desenvolvimento desta região — facto que perdurou ao longo de gerações e que continua a definir o carácter desta instituição centenária.
O Povo do Norte (várias edições, 1929). | Adaptações: Prof. Júlio Coutinho.
Contactos
5000‑528 Vila Real
Camilo Castelo Branco
1825 – 1890
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu em Lisboa e passou parte da infância em Trás-os-Montes, região que marcou profundamente a sua obra. É um dos maiores romancistas da literatura portuguesa, autor de Amor de Perdição e mais de duzentas obras. Em sua honra, o Liceu de Vila Real adoptou o seu nome em 1914, perpetuando a ligação entre o escritor e a identidade cultural transmontana.
Monsenhor Jerónimo do Amaral
1843 – 1921
Figura central na criação do Liceu de Vila Real, Monsenhor Jerónimo do Amaral foi um sacerdote e benemérito transmontano que cedeu as instalações do Colégio de Nossa Senhora do Rosário para o internato liceal, tornando possível a elevação do liceu a central em 1911. A sua generosidade marcou definitivamente o ensino secundário em Trás-os-Montes.
Bandeira da Academia
Benzida na Sé em 1925
A bandeira da Associação Académica Camilo Castelo Branco foi benzida na Sé Catedral de Vila Real em 1925, num acto solene que marcou a consolidação da vida académica do liceu. Transportada nos cortejos do 1.º de Dezembro, tornou-se símbolo da identidade e da memória colectiva de gerações de estudantes transmontanos.
O Regadinho
Tradição das mais queridas do liceu, o Regadinho era o cortejo académico do 1.º de Dezembro. Com capas ao vento, os estudantes percorriam as ruas de Vila Real em Ruada festiva, parando nas casas dos professores para lhes prestar homenagem. O cortejo culminava no Jardim da Carreira com uma homenagem a Camilo, seguida de baile no Salão Nobre do Clube de Vila Real. As damas nas varandas recebiam as capas negras dos estudantes, retribuindo com ramos de violetas.
Boletim Cultural
O Boletim Cultural da Escola Secundária Camilo Castelo Branco é uma publicação periódica de natureza cultural que reúne contributos de alunos, professores e colaboradores externos nas áreas da literatura, das artes e do pensamento científico. Criado no início da década de 1990, o boletim tem como principal objetivo promover a reflexão, a criatividade e a divulgação cultural no contexto escolar, funcionando simultaneamente como um elo entre a escola e a comunidade. Ao longo dos anos, tem-se afirmado como um espaço de expressão e partilha, contribuindo para a valorização cultural da região e para o desenvolvimento do espírito crítico dos seus participantes.